quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

UM POUCO DO ANTIGO AOS NOVOS


Por J.R.Martins

Os conterrâneos que nasceram nas décadas posteriores a 1960, com certeza desconhecem o que foi a cidade de São Luís do Maranhão em tempos anteriores ao seu crescimento para as bandas das praias. Praias que tinham o encanto de serem quase desconhecidas e inacessíveis; praias que desconheciam a sujeira dos esgotos e do descaso dos atuais frequentadores.

Provavelmente os mais novos pensarão que nossa centenária capital sempre teve suas ruas atulhadas de sujeira, de carros e marreteiros (como eram chamados os atuais camelôs); que suas residências coloniais, das mais singelas aos mais deslumbrantes sobradões, já viviam abandonadas. Ignoram que já foram habitadas pela elite da sociedade ludovicense; que as estreitas e bucólicas ruas algum dia foram calçadas com pedras “cabeça de negro” ou paralelepípedos, o que havia de mais moderno para esse fim; que românticos bondes trafegavam vagarosamente pelas tortuosas ruas, conduzindo tranquilos passageiros, diferentemente dos atuais coletivos de hoje que enfumaçam tudo , ameaçam a segurança e tiram o sossego da população.

A minha cidade, a cidade de minha infância e adolescência, era bem diferente dessa que aí está e que alguns sonhadores, como eu, ainda têm a esperança de trazê-la de volta. Pura quimera, naturalmente. Por mais que venham a surgir projetos com essa finalidade o utópico retorno nunca passará de um sonho. Embora a contragosto, deixando de lado a fantasia, sou obrigado a admitir que nossa antiga São Luís jamais retornará aos tempos que antecederam seu abandono. Sobraram apenas as recordações.

Ainda me lembro de quando a Avenida Beira-mar só ia até a Praia do Caju. Até um pouco depois da Rua do Ribeirão. Além disso, deixava de existir a amurada do Cais da Sagração (apenas popularizado após o romance de Josué Montello, de mesmo nome) e apenas um atracadouro constituído por um paredão de pedras protegia das águas do Anil a área ocupada pela Estrada de Ferro São Luís Teresina. Ali havia a carcaça de uma velha embarcação naufragada – provavelmente uma alvarenga -, onde diziam os pescadores de ocasião que havia grande concentração de peixes. Outros, porém, mais exigentes no esporte, garantiam que a abundância referia-se apenas aos pequenos bagres conhecidos por “papa-bosta”. Realmente, naquele local havia algumas bocas de esgoto que despejavam constantemente as imundícies de que se alimentavam aqueles pequenos peixes.

Ainda sem o assoreamento dos dias atuais, o mar agitado das grandes marés era um atrativo àqueles que se dirigiam à Beira-mar para assistir ao espetáculo. Era com saudável algazarra que festejavam, gritavam e riam quando molhados pela ressaca que se precipitava contra o paredão de pedras do cais. Esse fenômeno já é raro acontecer.

Onde hoje é a Praça Maria Aragão, havia uma grande área pantanosa cortada pelos trilhos que levavam as composições até Teresina, no Piauí. Ali era onde, igualmente, se situavam os viradores das locomotivas e as oficinas de manutenção dos trens.

Partindo da Estação João Pessoa, as composições seguiam adiante pela Praia do Jenipapeiro, transpondo um diminuto túnel que ligava a Rua de mesmo nome à dita praia, e seguiam espremidas pela chamada Estrada da Vitória até bem depois do Porto de Roma Velha, no Areal, atual Monte Castelo. Espremidas porque com o passar dos anos, a população miserável foi construindo suas moradias muito próximas da linha férrea, para ganhar mais espaço, obrigando as locomotivas a diminuírem ao máximo a velocidade durante a travessia, para evitar acidentes. Estrada da Vitória foi o nome dado àquele corredor de casebres, tomado emprestado à famosa Quinta Vitória, que pertenceu ao poeta Sousândrade e ficava nas proximidades do Jenipapeiro.

O local onde edificaram o terminal ferroviário – hoje uma delegacia de polícia - foi resultante de aterramento da antiga Praia de Santo Antônio. Da Praia do Caju até a Rampa de Palácio – mais tarde denominada Campos Melo – havia ainda a Praia do Armazém, ou da Trindade, antes do Baluarte de São Damião (onde instalaram a Pedra da Memória) e do de São Cosme, onde construíram um coreto. Apesar da denominação praia adotada àqueles locais, verdadeiramente nunca existiram praias como nos acostumamos a ver; rendadas com grandes faixas de areias brancas.

Logo depois do prédio do Tesouro do Estado e dos Armazéns Gerais (atual Casa do Maranhão), havia uma segunda rampa de embarque/ desembarque, hoje pouco lembrada, chamada Rampa do Comércio. Eram tantos os barcos que ali ancoravam que, lado a lado, tornavam-se uma verdadeira passarela por onde passageiros e embarcadiços transitavam até a terra firme. Era deslumbrante a variedade de cores das velas, como se fosse um painel pintado por um fino artista plástico. Infelizmente foi aterrada e, pelo que constato em pesquisas de campo, sequer existe algum documento ou registro fotográfico que testemunhe sua existência.

Juntamente com a mencionada rampa, também foram aterradas as do Portinho, do Desterro, além de outras localizadas em indústrias que davam fundos para o Rio Bacanga. Este rio também sofreu uma grave agressão, quando, em lugar de uma ponte, construíram uma barragem para ligação da cidade aos sítios situados na margem oposta. Ao que tudo indica, juntamente com o posterior aterro para construção do anel viário, deflagrou o processo de assoreamento da bela enseada originada da confluência dos dois principais rios da ilha.

A pequena edificação que está localizada no final da Montanha Russa, de frente para a Beira-mar, foi construída nos primeiros anos do século XX, destinada à instalação do modesto maquinário que processava a matéria orgânica de parte do esgoto da cidade, antes de ser lançada ao mar. Uma espécie de liquidificador de fezes e outros detritos. Recentemente reformada e pintada, passou muitos anos totalmente ignorada pelas autoridades. Ao lado, uma quadra de tênis construída pelos ingleses funcionários do Cabo Submarino (The Western Telegraph Company) foi a primeira de São Luís. Funcionou até quando vendida, juntamente com o terreno ao lado, para edificação do clube Casino Maranhense. Assim, chegou ao fim aquele tradicional espaço dedicado ao nobre esporte britânico.

Da Montanha Russa até o final da Rua do Ribeirão não havia construções. Apenas um grande terreno insalubre, alagadiço, denominado Parque XV de novembro, onde circos encontravam lugar para armar suas grandes tendas e se apresentavam à população. Quando desocupado, era utilizado como campo de futebol pela gurizada das redondezas. Naquele ponto, em frente à Praia do Armazém, consta que foi enforcado o revolucionário Manuel Beckman, ou Bequimão, como se tornou conhecido. Em homenagem a ele, como forma de perpetuar sua imagem significativamente representativa na história do Maranhão, foi ali erigido um singelo monumento em forma de pirâmide.

Na primeira metade do século passado, após a construção da Avenida Beira-mar, surgiram os primeiros bangalôs que ainda hoje ali estão e onde moraram famílias como os Pires Leal e os Neiva de Santana. Mais tarde o engenheiro Cléon Furtado construiu sua residência em terreno mais próximo à atual Ponte do São Francisco, em frente a um pequeno sobrado onde funcionou por muitos anos o serviço de praticagem do porto de São Luís.

Apenas na década de 1950 foi aberta a ligação para carros entre as avenidas Beira-mar e Pedro II (ex Avenida Maranhense). Como ainda não havia também a ligação da Rua do Egito com a primeira dessas avenidas (apenas executada após a construção da ponte), o trânsito de veículos entre o centro da cidade e a zona portuária, aí incluída a Beira-mar, era por demais complicado.

A carga e descarga de embarcações de grande porte, como navios, eram realizadas em grandes chatas, conhecidas como alvarengas, puxadas por possantes rebocadores. O negócio era explorado por algumas empresas particulares, como Nelson Faria e Couto & Cia. Por falta de atracadouro seguro – principalmente em razão da grande variação das marés – os navios fundeavam ao largo, na enseada fronteira à cidade, geralmente nas proximidades das Pontas de São Francisco e d’Areia. Ainda não havia sido construído o porto do Itaqui. As mercadorias eram apanhadas ou desembarcadas pelas mencionadas alvarengas em atracadouros dos Armazéns Gerais ou das indústrias – principalmente têxteis – localizadas às margens do Rio Bacanga.

Encerro por aqui esta primeira tentativa de resgatar um pouco da memória de São Luís, que hoje em dia anda tão esquecida.

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